No futebol, o sucesso quase sempre se resume a uma questão de timing. Estar no lugar certo, na hora certa, tomando a decisão exata. Para um atacante, isso é lei. Mas quando você olha para o Real Madrid ultimamente, a sensação é de que o relógio interno do clube quebrou de vez. O empate catártico e tenso de 2 a 2 contra o Valencia, no Mestalla, escancarou um time à beira de um colapso nervoso. A partida teve de tudo um pouco: Vini Jr. buscando o empate de cabeça na pequena área na raça, uma paralisação angustiante pela grave lesão do Diakhaby, pênaltis marcados e anulados pelo VAR e um roteiro final que terminou em gritaria, com Jude Bellingham recebendo o cartão vermelho aos 54 minutos do segundo tempo. Aquela panela de pressão no gramado não foi um acidente de percurso, mas sim o sintoma de uma doença muito maior que corrói o clube de dentro para fora.
Essa instabilidade tática e emocional é o reflexo direto de um vestiário que perdeu completamente sua bússola. A chegada de Kylian Mbappé aos merengues prometia a consolidação de uma dinastia, principalmente logo após o time faturar a Champions League. O problema é que a transição de poder foi brutal. As saídas de pilares fundamentais como Toni Kroos e, mais recentemente, de Luka Modric, deixaram um vácuo de liderança gigantesco na equipe. A nova hierarquia se perdeu no meio de tantos egos. E o astro francês, que pelo seu currículo, salário absurdo e idade deveria naturalmente assumir a bronca de guiar o elenco, simplesmente não entrega isso.
O timing do Mbappé com a bola no pé pode beirar a perfeição, mas fora das quatro linhas as decisões dele chegam a ser bizarras. Pega o último El Clásico contra o Barcelona, por exemplo. O cara, afastado por lesão, me solta uma foto no Instagram assistindo ao jogo com a legenda “Hala Madrid” e um coração branco. Lindo na teoria. Só que ele teve a brilhante ideia de postar isso exatamente no momento em que o time estava tomando de 2 a 0 e vendo o maior rival praticamente colocar as duas mãos na taça da liga. O torcedor madridista, que já anda com três pedras na mão, interpretou a mensagem nas entrelinhas da pior forma possível: “Vocês realmente acham que dão conta do recado sem mim?”. No fundo, a arquibancada nunca engoliu direito aquele circo de 2023, quando ele deu a palavra ao Madrid e do nada estourou fogos para anunciar a renovação com o PSG aos 45 do segundo tempo.
Nos bastidores da panela merengue, a situação é insustentável. A imprensa espanhola já escancarou que o vestiário está rachado em várias facções. O Vini Jr. parece ter carta branca da diretoria para fazer o que bem entende, saindo completamente ileso até quando disparou críticas públicas contra o ex-técnico Xabi Alonso. Mas o fundo do poço da convivência interna foi a porradaria franca entre Federico Valverde e Aurelien Tchouameni. Uma briga física pesada que mandou o uruguaio direto para o hospital com uma concussão. Diante de uma crise dessa magnitude, Mbappé simplesmente fez a egípcia e não deu um pio. Nenhuma postura de líder, nenhuma tentativa de apaziguar os ânimos.
O ranço da torcida com o francês ganha novos capítulos a cada semana. Depois da dura eliminação para o Bayern na Champions League, Mbappé sentiu um problema muscular. Em vez de focar na recuperação junto ao grupo, ele meteu um atestado e foi curtir a vida num iate na Sardenha com a namorada, a atriz Ester Expósito. Rolou muito banho de mar, festa e curtição enquanto o resto do elenco tentava juntar os cacos em Madri para planejar uma contenção de danos na temporada, inclusive se preparando para o clássico. A indignação tomou proporções tão irreais que um abaixo-assinado batizado de “Mbappé Out” pipocou na internet e juntou milhões de assinaturas em tempo recorde.
Os eventos que antecederam a derrota para o Barça em si só jogaram mais gasolina na fogueira. Consta que Mbappé abandonou o último treino em Barcelona faltando cinco minutos para acabar, alegando dores e desconforto. Detalhe: isso aconteceu logo depois dele descobrir que amargaria o banco de reservas. Ele sequer viajou para o estádio para apoiar os companheiros. Aí o time é atropelado, os jogadores saem de campo mastigando vidro de tanta frustração, e na segunda-feira lá está o camisa 9 postando foto sorrindo na academia. Como se aquele caos todo não fosse com ele. A paciência da mídia local evaporou de vez, com o jornal AS ironizando em letras garrafais: “E Kylian segue tranquilo, como sempre”.
Desde que o craque desembarcou no Santiago Bernabéu, a sala de troféus não viu a cor da La Liga e nem da Copa do Rei. Na Champions, o time empacou duas vezes seguidas nas quartas de final. E a ironia mais amarga para o torcedor do Real Madrid é olhar para a França e ver um Paris Saint-Germain que, livre da sombra pesada de seu antigo dono, joga solto, leve e ditando o ritmo na Europa. O Madrid, por sua vez, segue refém de um projeto galáctico que era perfeito no papel, mas que na grama do Mestalla e nos corredores do CT se transformou num barril de pólvora pronto para explodir a qualquer momento.
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